Em
26 de dezembro de 1958, o Grupo Executivo da Indústria Automobilística (GEIA),
criado por Jucelino Kubitchek, aprovou mais um projeto apresentado pela
Willys-Overland do Brasil S. A. Após meses de negociações com a Régie
Renault, na França, e com a Willys Motors, Inc, nos EUA, a montadora brasileira
enfim ganhava um empurrão para fabricar no país o Dauphine, um carro que,
segundo uma publicação da empresa na época, atendia “aos requisitos hoje
exigidos nos principais mercados, tais como: pequeno porte, compacto,
econômico, tècnicamente (sic) satisfatório e môdelo (sic)
recente.”
Era uma experiência nova para a Willys. Depois dos utilitários jipe e Rural, o Dauphine foi, de fato, o primeiro carro de passeio a ser montado pela empresa.
A Renault e a Willys americana
contribuíram com um investimento de
US$
12 milhões para viabilizar a produção do veículo, com a compra de
maquinário, ferramentas e equipamentos. Por seu lado, a Willys brasileira
construiu pavilhões adicionais em seu parque de São Bernardo do Campo e na
fundição, em Taubaté.
“Para
a produção do Dauphine, bem como do Aero-Willys, carro de passageiro de maior
porte que também pretende lançar no mercado brasileiro, a Willys-Overland do
Brasil vem expandindo continuamente seu conjunto manufatureiro de São Bernardo
do Campos. Somente a participação da Régie Renault, para a fabricação do
Dauphine, importou em investimentos da ordem de cerca de 12 milhões de dólares
em maquinaria e equipamentos novos. As instalações necessárias à produção
do Dauphine demandaram construções adicionais de 47.851 metros quadrados em
São Bernardo do Campo, mais 2.400 metros quadrados de área adicional na
fundição de Taubaté, para fundição de blocos de motores, cabeçotes e
outros componentes”, escreveu, em novembro de 1959, o repórter Morel M. Reis,
na extinta “Folha da Manhã”.
Os primeiros Dauphines saíram
das linhas de produção do ABC paulista menos de um ano após a aprovação
pelo
governo, em 12 de novembro de 1959, apenas 25% nacionalizados. A Willys, porém,
precisava seguir o programa apresentado ao GEIA e, em dois anos, 95% dos
componentes do carro eram fabricados no país.
Já em 1960, o carro trazia uma novidade: a suspensão “Aérostable”, que na França só equipou os Dauphine Gordini. No mais, o carro era idêntico ao modelo francês: três marchas, 31 hp de potência, 845 cc e acabamento simples. Foi, ao lado do Simca Chambord, o primeiro sedã brasileiro de quatro portas com carroceria monobloco.
Em um anúncio de TV da época, um locutor com voz empolada apregoava: “Ele é seguro. A nova suspensão Aérostable dá ao Renault Dauphine excepcional estabilidade, oferecendo maior aderência ao chão e maior estabilidade nas curvas. O motor do Renault Dauphine, localizado na parte traseira tem 31 hp e alcança 115 quilômetros por hora. Câmbio universal de fácil manuseio. Três marchas com a segunda e a terceira sincronizadas. Ele é ágil. Nervoso. Ligeiro no tráfego. Poderoso no arranque. Preciso nos freios. Renault Dauphine, um sucesso mundial fabricado pela Willys-Overland do Brasil”.
Em
seu balanço contábil de 1961, a Willys informa que havia produzido, até
então, 13.315 unidades do Dauphine. O modelo perdia, por pouco, para o
Aero-Willys, lançado três meses depois: 13.871. Como o Dauphine duraria apenas
mais seis meses, até junho de 1962, pode-se estimar que cerca de 19 mil
unidades saíram das linhas de São Bernardo.
Em março de 1961, o então repórter e hoje publicitário Mauro Salles, avaliou um Dauphine para a “Mecânica Popular”. “Já se disse que certos motoristas tratam seus carros com o carinho reservado a uma namorada. Pois o Dauphine nasceu para ser esta espécie de namorada mecânica. Bem desenhado, bem proporcionado, de linhas suaves e harmoniosas, o carro é uma gostosura de se ver e dirigir. Como certas heroínas que a história registra, e que disfarçavam na fragilidade do sexo uma coragem insuperável, o Dauphine esconde na sua aparência de brinquedo uma bravura e uma resistência admiráveis”, escreveu.
Salles percorreu cerca de 10 mil
quilômetros em quatro Dauphines. “Quanto à aceleração, os resultados
dependem
principalmente da eficiência com que forem trocadas as marchas. De 0 a 100 km/h
tivemos vários registros de 30 segundos e dois ou três de 29,7 segundos,
passando as marchas a 35 km/h e 75 km/h. O quilômetro de arrancada variou de 44
a 51 segundos, mas as medidas mais constantes estavam nas proximidades dos 46
segundos (...) O Dauphine é um carro excepcionalmente econômico. No tráfego
urbano, não muito congestionado, a média obtida nos testes foi de 12,9 km/l.
Na estrada, com as velocidades oscilando dos 60 km/h aos 110 km/h, o
aproveitamento de combustível fica na casa de 14 km/l a 15 km/l. Nenhum outro
dos carros fabricados no Brasil seria capaz de tal desempenho”, concluiu
Salles. A velocidade máxima real obtida nos testes foi 118 km/h. O
velocímetro, porém, apontava 125 km/h.
Apesar de o carrinho ter uma boa
aceitação no mercado, a Willys sabia que podia melhorá-lo, substituindo-o
pelo Gordini, já fabricado na França desde 1958. Seguindo o mesmo procedimento
anterior, os executivos brasileiros negociaram com os franceses e americanos e,
em julho de 1962, começou a produzir no país o Gordini.
O Dauphine brasileiro teve ainda uma sobrevida até 1966, mas a vez era do Gordini. Apesar disso, até hoje o modelo é apreciado por colecionadores pelo país e lembrado pelos saudosistas como um carro, no mínimo, simpático.